Filme "Amor Enrolado" e a Jornada do Amor-Próprio

Olá, unnies e oppas, hoje vamos falar de um filme lançado pela Netflix e que se tornou um sucesso global em pouquinho tempo, ao apresentar uma comédia romântica adolescente qeu trata de uma jornada do amor-próprio para os protagonistas. 

Estou falando de "Amor Enrolado" (Love Untangled, 2025) que vai muito além dos clichês do gênero


Ambientado na Busan de 1998, o filme acompanha a maluquinha Park Se-ri (Shin Eun-soo, de Melancia Cintilante), uma estudante de 19 anos. Desde cedo, ela sempre teve sucesso em seus pequenos romances, até que um dia, os genes dos cabelos enrolados surgiram, e passam a ser um obstáculo à sua felicidade. 


Ela acredita que só pode declarar seu amor pelo garoto que ama se puder ter os cabelos lisos como sua irmã gêmea. 

Apesar de ter essa premissa simples, o filme tece uma reflexão profunda sobre a tirania dos padrões de aparência e a busca eterna pela aparência perfeita, em detrimento da descoberta de sua própria identidade e da essência do amor verdadeiro que valoriza o ser e não a imagem. 

A Metáfora do Cabelo: A Prisão da Aparência "Perfeita"



No cerne do filme está uma metáfora poderosa e universal: os cabelos cacheados de Se-ri. Em uma sociedade (especialmente na Coreia dos anos 1990) que valorizava a homogeneidade e o alisamento, seus cachos são apresentados como um símbolo daquilo que foge ao padrão e, portanto, precisa ser escondido ou corrigido

Se-ri acredita piamente que, para ser digna de amor — em especial, do afeto do popular Kim Hyeon (Cha Woo-min, de Night Has Come) —, ela precisa primeiro domar sua característica mais natural.


Essa obsessão pela "correção" estética vai além da vaidade. Ela representa a dor universal da adolescência: a sensação de inadequação, a pressão para se conformar e a crença de que nossa verdadeira essência é um defeito a ser reparado

A diretora Sun Namkoong (Tempo de Ser forte), conhecida por abordar temas sociais complexos em seu trabalho anteriores, trata essa insegurança não como futilidade, mas com a seriedade devida, validando o sofrimento emocional que tais pressões causam

Sun Namkoong, a diretora do filme


O filme captura com precisão como a busca por uma aparência perfeita e socialmente aceitável pode se tornar uma barreira para a autoexpressão e para a conexão genuína.

Os Personagens: Espelhos de Diferentes Relações com os Padrões

A narrativa constrói um contraste revelador entre seus personagens centrais, ilustrando diferentes formas de se relacionar com as expectativas do mundo:

  • Park Se-ri (Shin Eun-soo)



Ela é o arquétipo da insegurança internalizada. Sua "Operação Amor" para conquistar Kim Hyeon é, na verdade, uma operação para se tornar outra pessoa — uma versão lisa e aceitável de si mesma. Sua jornada é a de aprender que o amor não é uma conquista a ser alcançada através da camuflagem.
  • Han Yun-seok (Gong Myung)



O novo aluno transferido de Seul funciona como um contraponto crucial. À primeira vista distante, ele carrega suas próprias feridas e segredos familiares. Yoon-seok não se encaixa nos moldes do galã típico; sua beleza está na quietude, na observação e, principalmente, na forma como  Se-ri. Ele se torna um espelho que reflete não a imagem que ela quer projetar, mas a pessoa que ela realmente é, o que conquista a nossa maluquinha Se-ri. Ele também tem um jornada de amor-próprio individualmente, pois ele sofre com a opressão de seu pai agressivo, mas possui suas próprias vontades e escolhas. 
  • Kim Hyeon (Cha Woo-min)



O objeto inicial do afeto de Se-ri representa justamente o ideal superficial: a aparência perfeita, a popularidade, a aceitação social imediata. Ele é o prêmio que Se-ri acredita que só poderá ganhar se ela também for "perfeita". Em determinado momento, ele também sente-se atraído por Se-ri, somente depois que ela alisa do cabelo. 

O Amor Verdadeiro: A Descoberta no Espelho do Outro

O núcleo da tese do filme se desenvolve no relacionamento que cresce organicamente entre Se-ri e Yoon-seok. Diferente da paixão idealizada por Hyeon, baseada em projeções, o vínculo entre os protagonistas é construído sobre vulnerabilidade compartilhada e aceitação mútua.


Yoon-seok não ama Se-ri apesar de seus cabelos cacheados; seu afeto está intrinsicamente ligado a quem ela é em sua totalidade. Em um dos momentos mais significativos, quando questionada sobre o que faria se sua declaração de amor falhasse, Se-ri responde: "O tempo que passamos juntos ainda permanecerá, não é?". Esta fala antecipa a mensagem central: o verdadeiro valor está no processo de se conhecer e de ser visto, não no resultado de um "troféu" romântico. O filme argumenta, de forma comovente, que o amor que vale a pena é aquele que nos encontra em nossa autenticidade, que nos valoriza pelo que somos, e não pelo que poderíamos representar socialmente.

Uma Confissão de Autoaceitação

"Amor Enrolado" utiliza com maestria a atmosfera nostálgica dos anos 1990 — um tempo sem redes sociais, onde os encontros eram casuais e as confissões, presenciais — para destacar a natureza atemporal de seu conflito. A direção sensível de Sun Namkoong e as atuações cativantes do elenco, especialmente de Shin Eun-soo e Gong Myung, dão peso emocional a essa jornada.



Mais do que uma simples história sobre uma garota que quer alisar o cabelo para conquistar um garoto, "Amor Enrolado" é uma narrativa madura sobre crescimento. A "confissão" do título acaba não sendo dirigida apenas a um crush da escola, mas é, acima de tudo, uma confissão para si mesma: um ato de reconciliação com a própria imagem no espelho. O filme conclui que a maior conquista amorosa possível é o amor-próprio, e que o relacionamento mais significativo é aquele que nos encoraja a vivê-lo em sua plenitude, sem enrolações.

Caso não tenha visto o filme ainda, bora assistir. O típico filme para assistir num domingo a tarde: quando refletimos sobre nossas jornadas pessoais. 

E se já viu, comenta aí, o que achou?

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